Pois bem, a festa do padroeiro da cidade –São Miguel Arcanjo – ocorreu no dia 29 de setembro, A Prefeitura, no entanto, sem discutir e sequer comunicar formalmente ao segmento turístico, resolveu liberar a cidade –na verdade a Praia da Xepa, a área mais nobre da cidade e próxima a inúmeras pousadas e restaurantes – no feriado de 10 e 11 de outubro, para fazer duas grandes noitadas de shows e forrós com uma potente banda de Natal.
Antes de tudo, é preciso dizer que ninguém –ou pelo menos alguns colegas investidores com quem converso – é contra a realização de festas deste tipo. Entendo –e aqui é minha opinião pessoal - que este tipo de evento faz parte da cultura e da tradição local. Mas é preciso, primeiro, que a Prefeitura encontre um local adequado para estas festas, para evitar que o enorme barulho provocado por estes eventos afete as pousadas e deixem hóspedes, que estão na cidade para curtir outro tipo de entretenimento, sem dormir, à noite inteira.
Além do prejuízo financeiro das pousadas --muitas delas têm reservas canceladas quando há estas festas --, é enorme o estrago que este tipo de evento causa na imagem do nosso turismo. E as perdas de bares, restaurantes e comércio em geral? Perguntem a estes setores, Há muito tempo que o segmento turístico pede mais moderação da Prefeitura na liberação –e muitas vezes organização – destas festas.
Pois é importante que se diga que a Prefeitura recusa até mesmo –vejam bem, é isso mesmo! – a inverter a posição das caixas de som para o lado nascente, para evitar que o som, com o vento a favor, invada a praia do Maceió, causando enormes transtornos aos serviços noturnos das pousadas, localizadas naquela região, e imenso desconforto aos nossos hóspedes e visitantes.
Outra idéia, a de começar este tipo de festa mais cedo para também terminar mais cedo, é igualmente ignorada pela atual gestão. A administração municipal, com algumas exceções, é contrária ao diálogo e entendimento com os pousadeiros e congêneres por entender que isto fortaleceria alguns destes empreendedores.
Que santa ignorância!
É bom também lembrar que, há alguns anos, o Ministério Público Estadual estabeleceu um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a administração local –bem como com pessoas envolvidas em casas que realizam este tipo de show -- a estabelecer um calendário oficial de festas que podem prosseguir com barulho até depois de meia noite. Fazem parte deste calendário Natal, Ano Novo, Carnaval, Festa do Padroeiro (lembrem, realizada duas semana antes) e Dia da Emancipação do município.
Desta vez, no entanto, a Prefeitura exagerou na dose. Foram duas festas, a primeira, no sábado, dia 10 de outubro, na Praia da Xepa –deixou muitos hóspedes enraivecidos com o enorme barulho a noite inteira. Na noite seguinte, uma banda tocou num dos espaços que costuma realizar este tipo de festa, no centro da cidade, ao lado de colégios, igrejas, posto de saúde –e obviamente, pousadas e restaurantes da cidade.
Aliás, é bom que se diga que a proprietária deste estabelecimento já foi condenada pela Justiça por realizar suas festas até altas horas, sem que sua casa de shows tenha o menor isolamento acústico. Quando ela faz festa no seu estabelecimento, aí não são só os hóspedes de pousadas que ficam a noite em claro sem poder dormir, mas boa parte da população que mora nas proximidades do seu estabelecimento comercial.
O que o Ministério Público pode dizer agora sobre este desrespeito ao TAC? No caso da última festança, a proprietária deste estabelecimento, que realizou seu forró fora do calendário legal estabelecido pela Promotoria, e da própria administração municipal, que permitiu a festa, estão violando o TAC. Sim, para que festas deste tipo sejam realizadas há a necessidade de um alvará da Prefeitura. Então está claro que a administração municipal também descumpriu o TAC?
É bom que diga, finalmente, que há uma preocupação dos empreendedores que fazem nosso turismo de se criar um perfil de destino turístico para quem quer aproveitar intensamente nossa natureza, que favorece esportes praticados aqui (kit e windsurfe), mas também sendo alternativa para pessoas que buscam um lugar tranqüilo, sem agito, onde possam relaxar e descansar. Trata-se de um perfil de turismo que não é de massa, mas tem seu alvo direcionado para um público mais alternativo, qualificado, que busca locais exóticos e simples, mas com algum nível de charme e sofisticação.
E esta opção por este tipo de perfil turístico tem dado muito certo. São Miguel do Gostoso já tem hoje mais de 20 pousadas, muitas de excelente nível. Ótimos restaurantes e bares também têm surgido na cidade. Perguntem aos nossos comerciantes se eles hoje vendem mais, ou menos, do que vendiam antes, tanto para a população local, que já tem muitos empregados no ramo de turismo, como para os turistas que nos visitam. O turismo de São Miguel do Gostoso tem ou não impulsionado nosso crescimento econômico?
Mas parece que a Prefeitura não consegue ver –ou faz questão de não querer ver – esta realidade. Festas barulhentas e fora de época como as que foram realizadas nos dias 10 e 11 de outubro prejudicam e muito o crescimento e a consolidação do nosso destino turístico. Se a administração municipal quer mesmo o nosso desenvolvimento tem que, para início de conversa, criar mecanismos de diálogo com o setor turístico.
Festas barulhentas a noite toda, fora de um lugar adequado –fechado e acusticamente isolado – que incomodam hóspedes e visitantes, podem levar nosso turismo para o beleléu.
Esta foi mais uma aprontada pela turma do barulho.
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